Maternidade e Cidadania: Invisibilidades Femininas

Menina, mãe, mulher, profissional, cidadã

por: Lígia Quaglietta

Fazia um mês que a atriz Ligia Helena, 36, tinha dado à luz seu filho Arthur, quando ela começou a sentir que o retorno às atividade cotidianas não seria exatamente como ela tinha programado durante a gestação. Embora contasse com uma boa rede de apoio, havia algo que ela não poderia delegar ou organizar da forma como quisesse: a amamentação. Além disso, Lígia começou a perceber que apesar de a família, os amigos e os colegas de trabalho não serem indiferentes à sua nova condição de mãe, e até demonstrarem carinho, eles não vivenciavam a mesma situação e, por isso, não tinham a dimensão de suas reais necessidades. Ela conta que às vezes não era inserida em determinadas atividades porque as pessoas achavam que esta era uma maneira de assegurar a sua maternidade. “Eu me vi alijada do meu trabalho, que era a coisa que eu mais gostava de fazer, não só pela maternidade, mas pela ideia do que as pessoas faziam do que eu estava vivendo sem me perguntar o que eu estava vivendo”, diz.

Sociabilidade, alterações hormonais, relação com o corpo, opiniões e julgamentos alheios acerca de suas ações como mãe e a organização do dia a dia após o nascimento do bebê eram algumas das questões que permeavam o pensamento da atriz logo quando tornou-se mãe. Ela conta que sentia uma solidão decorrente de uma espécie de luto pela passagem da mulher que ela era para aquela que estava descobrindo: “eu acho que é um aspecto psicológico individual, um aspecto social, um aspecto das relações que se modificam e até você conseguir se reestruturar é como um luto mesmo. Até você se redescobrir, se reconstruir e falar: ‘tá eu posso ir por aqui’, é um processo solitário e ninguém vai fazer isso por você”, pondera Lígia.

Foi então que uma colega de trabalho de seu companheiro a convidou para participar de uma roda de conversas com mulheres em período pós-parto. Essa colega era Talita Talissa, 36, também atriz, cuja filha, Nina, nascera no mesmo dia em que Lígia descobriu que estava grávida. Foi a primeira vez que a “Lígia mãe” saiu de casa. No local do encontro, ela foi recepcionada com chá e biscoito de polvilho e conheceu outras mães que estavam na mesma condição que ela e se revelaram como uma rede de apoio que conseguia compreender com mais proximidade suas angústias, bem como ajudar a diluir seu sentimento de solidão. “A gente acha que não, mas é muito solitário ser mãe. Isso é um fato”, afirma.

O período pós-parto é chamado de puerpério. Com duração aproximada de seis semanas, é o tempo necessário para que o corpo da mulher retorne ao estado pré-gestação. Nessa fase, os órgãos que se adequaram ao crescimento do útero voltam ao lugar. Transformações psíquicas também estão presentes no puerpério em função das mudanças ocorridas no cotidiano da mulher.

No decorrer dos encontros Lígia e Talita estreitaram laços e tiveram uma ideia: fazer um espetáculo no qual elas oferecessem para outras mães o mesmo carinho e aconchego que haviam encontrado nos encontros pós-parto. Era a possibilidade perfeita para que elas falassem sobre o que estavam sentindo, ao mesmo tempo em que retornavam ao trabalho como atrizes. Nos primeiros meses de 2014 estreava Aventura de Nascer. Aventura de Parir, um espetáculo feito para as mães no qual as crianças mais do que poderiam acompanhá-las: deveriam.

Trajadas com saias rodadas e com os filhos apoiados em camisetas estilo sling (tecido que sustenta a criança junto ao corpo da mãe, deixando-a com as mãos livres para executar outras tarefas) as atrizes reproduziram em cena o ambiente que tanto lhes atraiu nos encontros de pós-parto, oferecendo chá com biscoito, bem como, abrindo espaço de participação da plateia para que as mães interagissem relatando suas experiências. “A estética do espetáculo era duas atrizes mães, fazendo o espetáculo e sendo mães. E isso pra mim já era muito legal porque a gente já colocava em questão quem é que pode estar em cena: por que uma mãe não pode ser e representar uma mãe em cena?, questiona Lígia. O Aventura parecia mesmo ser para aquelas mulheres a metáfora da possibilidade de ocupação da esfera pública na condição de mulheres, mães e cidadãs.

Com a preocupação de não ser invasivo e nem julgar a estrutura familiar de nenhuma das mães, Lígia acredita que o espetáculo pode construir um espaço no qual muitos tipos e condições de maternidade podem coabitar. Foram mais de dois anos de apresentações em que mães de diversas regiões e classes sociais revelaram desejos, sendo a maioria deles relacionados à liberdade como, por exemplo, sair para dançar, beber algo, ficar em silêncio e ter prazer.

Arthur e Nina cresciam e já não parecia ser coerente para as atrizes partilhar com as atuais mães momentos que para elas já estavam no passado. A última apresentação foi também a derradeira mamada de Arthur. Realização pessoal, autocuidado, profissionalização e balanço social das escolhas eram novos desafios para elas e não era mais possível retroceder. “O processo de entendimento da maternidade acabou sendo também um processo de nossa feminilidade, do nosso ser mulher no mundo”, conclui Lígia.

O que é o feminino? Qual o seu lugar? O que querem e necessitam as meninas, mães, mulheres, profissionais e cidadãs? Essas são algumas das perguntas que a reportagem “Maternidade e Cidadania: Invisibilidade Femininas” convida os leitores e as leitoras a refletir nas próximas páginas.