O mito do amor materno

Era uma vez uma mulher que não queria ser mãe...

por: Nathália Bueno


Lola Andrade


O amor materno, para muitos, pode parecer um conceito inerente e natural às mulheres. Contudo, essa “devoção” materna para com os filhos se deu muito mais por uma imposição social do que por uma escolha natural.

Muitas mulheres passam a vida inteira sem perceber como a sociedade patriarcal decide suas atitudes e caminhos através de um dogma invisível, o de mulher-mãe. Porém, antes de ser mãe, é necessário que a mulher se descubra propriamente como mulher. Como diz a filósofa Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se”. Uma vez decidida, ela mesma deve usar de seu livre-arbítrio para escolher o seu próprio caminho, seja ele de mulher-mãe ou de simplesmente, mulher.

Essas são Maria Luisa Santos, uma jovem de 21 anos, estudante de Direito, que sonha em se tornar delegada da Polícia Federal, e Maria Flávia Cardoso, uma mulher de 27 anos e enfermeira. Assim como elas, diversas mulheres já se questionaram sobre sua vontade de gerar e criar uma criança, porém muitas acabam desistindo de nadar contra a corrente do que seria o caminho “natural” das mulheres, devido ao intenso preconceito enraizado na sociedade contra aquelas que escolheram seguir a sua vida sem a passar pela experiência da maternidade.

A maternidade compulsória, ou seja, como uma imposição à mulher, pode ser considerada um termo relativamente novo. Datado da segunda metade do século XVIII, o conceito surge da necessidade de se repopular a Europa que, à época, estava sofrendo uma intensa queda demográfica devido à drástica taxa de mortalidade infantil.

Segundo Elisabeth Badinter em seu livro Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno:

foram necessários nada menos que três discursos diferentes para que as mulheres voltassem a conhecer as doçuras do amor materno e para que seus filhos tivessem maiores possibilidades de sobrevivência: um alarmante discurso econômico, dirigido apenas aos homens esclarecidos, um discurso filosófico comum aos dois sexos e, por fim, um terceiro discurso, dirigido exclusivamente às mulheres.

Esse último discurso é o que conhecemos hoje como o famoso “instinto materno”, termo criado pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau em sua obra Èmile. De acordo com Rousseau, toda mulher possui um desejo incontestável de ser mãe e esta só será plena quando gerar e trouxer ao mundo um filho para chamar de seu.

Uma vez difundido o conceito de Rousseau, a visão da maternidade mudou completamente e passou a ficar a cargo da mãe educar e amar seus filhos acima de tudo. Esta perspectiva reverbera nas mulheres do século XXI:

por ser um fator biológico da mulher gestar, parir, amamentar e trazer uma criança ao mundo acho que, na cabeça dos homens da época, nada mais justo que ela arcasse então com as responsabilidades de cuidar integralmente da criança, o que obviamente está até hoje presente. Na nossa sociedade a gente ainda vê que ter filhos é sempre uma questão muito mais pesada para a mulher do que para o homem, afirma Maria Luisa.

De certa forma, não é possível negar que a maternidade não ajudou as mulheres. Há apenas alguns séculos atrás, a população feminina não era nem ao menos considerada cidadã: foi com a maternidade que elas conseguiram encontrar um espaço em uma sociedade completamente patriarcal, embora essa mesma maternidade tenha se tornado um lugar rígido.

Patrícia Marxs, advogada e influencer digital através do perfil “Laqueadura Sem Filhos Sim” no Instagram, passou grande parte da sua vida sem se questionar sobre a possibilidade de seguir uma vida sem filhos.

Criada por uma família conservadora, possuía uma idealização sobre a perfeita vivência feminina que seguia a seguinte ordem: namorar, casar e ser mãe. Contudo, após iniciar esse processo, percebeu que talvez não se sentisse feliz olhando para esse caminho traçado para o seu futuro

Patricia Marxs

A advogada se casou aos 19 anos e, durante os dois anos que dividiu a vida com o ex-marido, passou pelo o que hoje muitas mulheres temem viver e muitas continuam sofrendo: um relacionamento abusivo.

“Muita gente falava que era romantismo e que marido era assim mesmo, porque ele queria coroar o casamento com filhos. Só que aquilo ali foi me deixando muito mal, porque eu não podia ter uma rotina. Como ele já queria que eu engravidasse, que tivesse filhos, eu fui começando a me perguntar se ter filhos era o que eu queria realmente, porque eu visualizava ele cuidando da minha cachorra e ele maltratava a cachorra e eu pensava, ‘meu deus se ele maltrata a cachorra ele vai maltratar nosso filho’”, conta.

Lola Andrade

Lola Andrade é psicóloga e aponta como a imposição dos valores patriarcais podem transformar a vida de uma mulher, e ela própria, em um objeto a ser controlado:

Aliás, o controle da população feminina é algo que vem sendo cada vez mais discutido nos últimos anos, sendo #MeuCorpoMinhasRegras uma das hashtags que mais ganhou força nas mídias e em manifestações recentes.

A concepção de que a mulher não possui o controle do seu próprio corpo gerou revolta nas redes sociais e trouxe importantes discussões à tona, como a descriminalização do aborto, a própria escolha de não ser mãe e os procedimentos que podem ser realizados para evitar que isso aconteça.

Hashtags

Segundo o IAG, Instituto Alan Guttmacher, entidade americana que estuda a questão do aborto no mundo, cerca de 1 milhão de mulheres abortam no Brasil todos os anos. Muitas delas acabam recorrendo ao procedimento pois nunca sequer pararam para se perguntar se algum dia cogitaram se tornar mães e, quando se dão conta, estão grávidas de uma criança que nunca quiseram.

Fernanda Watari é obstetra e conta que já auxiliou na gravidez de uma moça que claramente não queria dar a luz à criança que carregava. Na época, Watari trabalhava no hospital maternidade do SUS em São Paulo e relata:

“Foi perceptível que era uma questão velada e silenciada por ela com receio do julgamento que poderia receber dentro da instituição de saúde. Uma atitude totalmente compreensível, considerando a hostilidade que pode haver em alguns serviços de saúde não tão bem preparados para abordagem adequada de quem quer interromper uma gravidez”.

Outra situação presenciada por Watari foi a de uma mulher casada, que engravidou em um momento de dúvida sobre sua vontade de ser mãe, mas a gestação se deu forçada por seu círculo social e por falta de amparo e compreensão de profissionais que pudessem auxiliá-la na sua situação.

Por meio desses relatos, surge uma outra discussão: seriam essas situações um caso de saúde pública?

Estima-se, de acordo com o Ministério da Saúde, que foram realizadas entre 983,7 mil e 1,1 milhão de interrupções voluntárias da gestãção por ano, de 2008 a 2017, entre a população feminina de 10 a 49 anos.

Nessa pesquisa constatou-se que:

De acordo com o levantamento realizado pelo órgão, calcula-se que, nos últimos dez anos, mais de 15 mil mulheres buscaram atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) devido a complicações relacionadas ao aborto realizado em clínicas clandestinas.

Muitas delas nem ao menos sabem que o SUS oferece procedimentos totalmente gratuitos para evitar que uma gestação indesejada ocorra, como a laqueadura e a salpingectomia.

Laqueadura:

A laqueadura, também é conhecida como ligadura tubária. As tubas uterinas são cortadas e/ou cauterizadas ou ocluídas (fechadas), promovendo sua obstrução e impossibilitando o encontro do óvulo com o espermatozóide. É um método contraceptivo definitivo com possibilidade de reversão, embora não se possa garantir sua possibilidade ou que a reversão será bem-sucedida.

Créditos: Fernanda Watari

Salpingectomia:

A salpingectomia consiste na remoção de uma ou das duas tubas uterinas - podendo ser realizada concomitante ou não à retirada de um ou de ambos os ovários e a retirada do útero, durante uma cesárea ou em outro momento. A cirurgia pode ser feita na modalidade de laparotomia, que é a cirurgia tradicional através de um grande corte no abdômen e o cirurgião opera a olho nu, sem o apoio de um aparelho endoscópico. Também pode ser feita por vídeo, chamada de laparoscopia, uma cirurgia minimamente invasiva, feita através de pequenos cortes na região abdominal para realização do procedimento com micro câmera e demais instrumentos.

Créditos: Fernanda Watari

Um grande problema que ocorre muitas vezes, porém, é a falta de informação dentro do próprio Sistema, como ocorreu com Maria Flávia em sua tentativa de realizar a salpengectomia:

Maria Flávia Cardoso

Esse é outro discurso muito perpetuado e que constantemente inibe as mulheres em sua decisão da não maternidade: a ideia de que existe um homem certo para cada uma e que a decisão de não ser mãe a fará se sentir incompleta. Essa fala é uma forma de machismo perpetuado pela própria população feminina que, influenciada principalmente pelos contos de fadas, acredita que o famoso “príncipe encantado” aparecerá em suas vidas e então elas poderão se sentir realizadas ao criar a chamada “família perfeita”.

No meio dessa moral enraizada, os próprios homens, com frequência, não conseguem se dar conta de que talvez a paternidade não lhes convenha também. Maria Flávia e Maria Luisa contam como partilharam sua decisão da não maternidade com seu namorado e noivo, respectivamente:

No início ele disse que eu mudaria de ideia, que todas as mulheres querem ser mães, mas eu estabeleci as minhas regras: daqui não sai. Se você quiser ter um filho, você vai ter um filho e eu vou sentir saudade, mas eu também não perdi a oportunidade de mostrar para ele o verdadeiro lado da maternidade, porque sempre que a gente saía em família eu destinava a ele o trabalho de cuidar das crianças Quando todos estavam sentados à mesa, conversando e comendo, ele ficava correndo atrás da criança em volta das outras mesas. Quando a criança não queria comer, chamava ele para insistir, para dar comida na boca da criança e quando a criança chorava, entregava para ele, porque a maioria dos homens acha que ter filho é só postar foto não querem ter o trabalho. Hoje ele percebeu que a maternidade e a paternidade não são o que ele imaginava e disse que também não quer, conta Maria Flávia.

Maria Luisa Santos

Que a escolha da não maternidade leva as mulheres a sofrerem um intenso preconceito da sociedade, é visível. Todavia, a própria escolha de gerar uma criança também pode ser passível de chacota para uma parcela da população feminina que vem tentando difundir o conceito da maternidade compulsória.

Patrícia Marxs conta que resolveu criar sua própria página no Instagram depois de ter contato com diversos grupos NoMo (comunidades contra a maternidade compulsória) que, segundo ela, possuíam opiniões muito radicais em relação às mulheres que decidiam por si mesmas assumir a maternidade.

Patricia Marxs

A psicóloga Lola Andrade deixa bem claro que atitudes como essa, de extrema repressão ao diferente, podem significar uma falta de certeza da própria decisão dessas mulheres de não seguir a maternidade, pois segundo ela: “eu não posso dizer que eu estou bem resolvida se o diferente de mim me incomoda”.

Cada indivíduo é livre para ir e vir segundo a Constituição de 1988. Sendo assim, cada cidadão de uma sociedade, as mulheres incluídas, possui o direito de decidir o que fazer e como viver sua vida, sem que suas decisões sejam questionadas por nenhuma entidade ou instituição. Se as decisões não ferem aos outros, nenhum mal ela fará para que haja repressão a ser ditada.