As vulnerabilidades maternas no mercado de trabalho

Profissionais e mães que enfrentaram a discriminação dos processos seletivos

por: Thaís Corrêa

Ana Soares

A história de Ana Soares, mãe e analista em RH, é dividida entre o norte e o nordeste do Brasil. Ela encara o desemprego e a maternidade sem uma rede de apoio e ainda precisou lidar com a saída do parceiro de dentro de casa. Ela foi para uma cidade nova com duas meninas pequenas encarar os desafios de ser mãe. Ana nunca desistiu de voltar ao mercado de trabalho depois da maternidade, mas soube, durante o processo seletivo para trabalhar em uma empresa, que por ter duas filhas as coisas ficariam mais complicadas.

Uma rede de apoio é um grupo de pessoas com quem a mãe pode contar para criar a criança. Podem ser avós, tios, amigos, vizinhos, outras mães, que fazem o vínculo social na vida daquele novo ser. Além de uma ajuda com a gestação e com o recém nascido, a rede de apoio também auxilia nos trabalhos domésticos e com a mãe recente, não se limitando apenas nesta fase, mas por toda a vida da criança.

Ana Soares

Segundo a pesquisa da FGV, 2016, as mães são demitidas em até dois anos após a licença maternidade. O que dificulta para as mães que só tem o ensino médio, por exemplo, que correm o risco de serem desligadas antes dos 24 meses, após o retorno. A pesquisa resulta em dados que comprovam a demissão após a volta da mãe ao trabalho, variando no nível de escolaridade, o tempo de licença maternidade que a empregada foi beneficiada, e se a empresa faz parte do “Programa Empresa Cidadã”, que estende o máximo do recesso de quatro para seis meses.

“Eu sentia dois obstáculos. Primeiro, por ter duas filhas pequenas, porque isso era o maior obstáculo que eu sentia e também por estar há três anos fora do mercado de trabalho. Então, eu me sentia assim meio que fora de tudo ali, meio que distante das coisas, porque eu acho que essas duas coisas se somavam e eram fatores que poderiam limitar a busca pelo emprego ou uma futura contratação”, diz Ana Soares.

Quando os empregadores reprovam estas mães, o motivo é, geralmente, por pensar que elas não vão dar conta do trabalho ou por acharem que as responsabilidades de cuidar, levar ao médico e à escola são só delas, o que acabaria “atrapalhando” o dia a dia no emprego.

A condição de desemprego para mães com filhos pequenos é uma questão cultural tanto para a Ana, quanto para Schaline Rudnitzki, mãe de 4 filhos e analista em comunicação. As duas passaram por processos seletivos com situações constrangedoras e discriminatórias por serem mães e afirmaram que a busca por emprego depois da maternidade é dificultada conforme a quantidade de filhos.

“Eu tive meu primeiro filho com 20 anos. De início, eu não senti tanta dificuldade no trabalho e em conseguir emprego, apesar de já ser mãe de dois. Depois do nascimento do meu terceiro filho, nitidamente as coisas mudaram”, percebe Schaline ao relacionar a quantidade de filhos e as oportunidades no mercado de trabalho.

Schaline Rudnitzki

Como os casos de Ana e Schaline, a discriminição na entrevista sempre vinha de mulheres recrutadoras. Na situação em que Schaline vivenciou, a recrutadora não levou em consideração a presença do pai na criação da criança, por não entender que ele teria também um papel importante no cuidado do filho. Na hora, Rudnitzki tentou argumentar dizendo que todos correm o risco de ficar doente e precisar de cuidados. Estamos sujeitos a cuidar de alguém e se ausentar alguma vez, seja com tios, avós ou qualquer pessoa que seja responsável. Mas quando se tem filhos, isso se torna um problema exclusivo das mães, na visão do empregador.

Schaline conta que depois que a recrutadora riu dela na entrevista gerou um certo trauma e foi pedir à sua terapeuta uma forma de falar com os empregadores sobre os seus filhos. Foi também por traumas em processos seletivos que ela mudou sua postura em redes sociais: agora ela não coloca mais fotos em perfis ou na capa do Facebook, por exemplo. Tudo fica bloqueado para que seu currículo não seja excluído diretamente por ter quatro filhos.

Schaline Rudnitzki

Maternidade Velada

Os relatos deixam claro que elas não passaram nas entrevistas por falta de competência, mas por serem mulheres e mães; por não terem só um filho e sim por ter dois, três ou quatro. A maioria das mães sofre em declarar que tem filhos pequenos no processo de seleção e algumas preferem não falar quando o assunto não é perguntado, por não ter a ver com seu profissionalismo e, também, pelas atitudes por parte dos selecionadores, como acontecem nas histórias das mães apresentadas.

O preconceito materno é tão comum no meio empregatício que chega a estar nas políticas de algumas empresas contratar essas mães como uma forma de inclusão. Não é só o Brasil que passa por isso, mas na Alemanha, por exemplo, existem fiscais que cuidam da inserção das mães no mercado de trabalho.

É o caso da Maria Cecília Oliveira, brasileira que vive na Alemanha e foi contratada ainda grávida. Ela lidera um grupo de pesquisa em ciências sociais no Institute for Advanced Sustainability Studies (IASS) e disse que não tinha muitas expectativas em ser contratada neste período de gravidez, recém chegada no país e apenas com o idioma inglês. Temia os preconceitos que tem no Brasil em relação às mães. Na Alemanha não é diferente: antes de ser contratada pelo instituto, teve que desistir de uma vaga quando anunciou a gravidez. Cecília foi aprovada nos testes, mas percebeu que teria problemas com o diretor acadêmico se quisesse continuar com a oportunidade, justamente pelo preconceito e pela falta de profissionalismo por parte do colega alemão.

Segundo Bianka Castro, psicóloga e umas das responsáveis do Recursos Humanos da mineradora Vale no Pará, quando uma vaga é aberta, segundo previsto em lei, os recrutadores não tem permissão de colocar gênero, cor, idade, ou qualquer atribuição não profissional na seleção previsto, sendo passível de processo judicial, se for o caso. Para ela, a melhor forma é ser sincera na entrevista e perceber se o recrutador está sendo preciso em suas perguntas, ou seja, se ele realmente quer saber se você tem uma rede de apoio.

A discriminação, ao contrariar o princípio da igualdade, significa o preconceito exteriorizado pela pessoa, grupo, comunidade ou sociedade, representando uma distinção, exclusão ou preferência infundada, ou seja, não justificável. A Lei 9.029/1995, no artigo 1º, também proíbe a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso a relação de emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade.

A advogada Fernanda Gabas, especialista em direito no trabalho, diz mais sobre as perguntas discriminatórias: “em regra geral, seriam inadequadas, politicamente incorretas e, em determinados casos, discriminatórias. Perguntas a qualquer candidato em processo seletivo, seja homem ou mulher, que tenham como objetivo revelar sua idade, raça, nacionalidade, sexo, religião, privacidade, situação financeira e/ou econômica, condição de saúde, estado civil e orientação sexual não são permitidas. Perguntas como ‘você está grávida?’, ‘Pretende engravidar em futuro próximo?’, ‘Faz uso de anticoncepcionais ou outro método contraceptivo?’, ‘Você bebe socialmente?’, ‘Sua vida social é muito agitada?’, dentre outras, são consideradas discriminatórias”.

Rede de Apoio e o Home Office

Com a pandemia causada pelo novo coronavírus, outras questões têm ficado aparentes sobre a presença de mães no mercado de trabalho. Além da invisibilidade da mãe no trabalho presencial, outra questão tem sido pautada com o trabalho em casa: deixar ou não os filhos aparecerem nas câmeras? Para a maioria das entrevistadas a maternidade nunca foi bem vista para os donos de empresa. Ou seja, se o homem deixa a criança aparecer por descuido na câmera é “bonitinho”, se a mulher deixa a criança aparecer ou o barulho vazar é descuido, como conta Diane Ziemann, jornalista e mãe de uma menina de 6 anos.

Para Schaline, por exemplo, o horário de trabalho é um momento sério. “Eu sou bem caxias com o meu trabalho. Então, o horário que eu estou trabalhando a minha porta está fechada. Claro que algumas das vezes eles batem na porta, mas dificilmente eu os atendo. Eu deixo muito claro que o horário que eu estou no trabalho eu estou no trabalho e com o tempo eles foram aprendendo a compreender”.

Ziemann, conta que sempre deixou clara a sua maternidade para os empregadores e que isso é importante para enfrentar os preconceitos contra as mães.

Diane Ziemann

Diane percebeu que para sua rede de apoio aumentar e o entendimento por parte de seu colegas e gerentes ser maior, a solução seria dar voz à sua vulnerabilidade materna. Para ela, então, a melhor forma foi trazer sua filha como tema nas rodas de conversa, compartilhar informações sobre sua realidade e ampliar o olhar dos amigos para que sua maternidade não fosse invisibilizada.

“Se eu não falo da vulnerabilidade materna, as pessoas não sabem como é a minha realidade, elas não vão saber como é o meu dia a dia”

Para a jornalista, expor suas fraquezas é deixar claro que as mães precisam de mais compreensão. “A percepção de você estar expondo suas fraquezas vem muito do fato daquela crença de que a mulher tem que dar conta de tudo e ela não pode reclamar de nada, dessa construção cultural que é uma coisa velada”.

A rede de apoio é essencial para que as mães consigam dar conta da rotina. Diane diz ser privilegiada por sua equipe entender sua maternidade e diz que um pouco é sua responsabilidade, por ter deixado tudo claro desde o início, e um pouco também por conta de ter uma chefia compreensiva.



As empresas estão mudando?

Apesar de Ana e a Schaline estarem empregadas hoje em dia, elas não acreditam que as empresas estejam mudando. Schaline não sente confiança no mercado, caso precise entrar em processos seletivos novamente, por ter quatro filhos. Para Ana, algumas empresas estão mudando seu posicionamento em relação à inclusão de mães no mercado de trabalho, depois de sua experiência de recolocação no mercado, sem ser questionada se ela daria conta de ser mãe e profissional ao mesmo tempo. Embora estejam empregadas, as mães entrevistadas têm receio de passar pelo desemprego novamente e entendem que nem todas as empresas acolhem a maternidade como uma fase natural da vida de uma mulher.

A confeiteira Giovana Petronilho desistiu da faculdade de Direito para se dedicar aos doces. A saída para o empreendedorismo se torna quase que obrigatória quando o mercado não entende os valores de uma mãe. Giovana se decepcionou com o Direito e se redescobriu na culinária, apesar de passar por experiências ruins para isso.

Giovana Petronilho

Giovana sempre tirou notas boas e diz que o Núcleo de Práticas Jurídicas da Universidade era um setor de atuação simples, que serve para tirar dúvidas das pessoas, mas que o problema não era o que ela poderia oferecer profissionalmente. “Sempre teve um: ‘Ah não, mas como você vai conseguir conciliar as duas coisas?’, aí eu: ‘Mas vocês não tem que se importar com isso, tem que se importar com o meu trabalho, com o meu comprometimento e nada mais além disso’. Eu fui conseguir um emprego quando eu comecei a fazer uns brigadeiros, mas ainda assim eu precisava de experiência na minha área, para me formar, querendo ou não eu ia ter que ter a experiência. Então eu comecei a procurar estágio e eu fui em umas 5 entrevistas e sempre era mesma coisa: eu passava em tudo e no final que a entrevista era mais pessoal, sempre era um problema”.

Giovana e Betina, 2020, reprodução Instagram


A confeiteira se formou em Direito mas diz não querer atuar na área. Conseguiu um estágio assinando em um site de vagas pago, ficou por nove meses e desistiu pela incompreensão de seus gestores com sua maternidade, e por não ter uma rede de apoio. Hoje, o Direito para ela é o seu pano D, pois nem o mercado de trabalho e nem a universidade estão preparados para lidar com mulheres mães, e o empreendedorismo é uma porta para as mães terem uma oportunidade de se sustentarem e sustentarem seus filhos. Embora as situações ruins que passou, a confeitaria é um trabalho que ela faz com amor. Graças à sua filha, Betina, ela pôde experimentar e se encontrar nos bolos e brigadeiros.

Giovana Petronilho