Como r(existir) em um mundo que não pertence às mulheres?

Quando a meritocracia se prova ineficaz, as mulheres continuam se empenhando em construir um “sim” bem grande, mesmo com todos os “nãos” que receberam

por: Lara Provase de Menezes

It’s a man’s man’s man’s world. Para além das composições musicais, a mensagem nada subliminar é tão sutil quanto a opressão que cerceia o feminino; o mundo é dos homens. Desde o nascimento, a mulher é relegada ao segundo sexo, que nada tem a ver com biologia, mas tudo tem a ver com a história da civilização. Essa coerção é externa à mulher, ou seja, não se origina em sua psicologia e nem faz parte de sua essência, mas nasce com a criação do eterno feminino e da noção de feminilidade, que ditam o lugar secundário que ela estará fadada a ocupar na sociedade. É que o entende Simone de Beauvoir em entrevista ao programa “Questionnaire”, em 1975.

Na origem dos tempos, a força física era importante, os mais fortes se apropriaram dos direitos, do poder, de modo a ter também proeminência econômica [...]. Isso era visível na China, por exemplo. Havia pobreza, matavam as meninas e impediam a mulher de participar na produção, de modo que o homem tivesse tudo nas mãos. Foi assim desde sempre e, não tenho tempo de contar a história da mulher, mas é claro que nas várias épocas sempre houve a vontade do homem de tomar o poder. [...]

Na Idade Média e até a Renascença, a mulher tinha muito poder como médica, conhecia muitos remédios, ervas, remédios para males da mulher, de muita valia. Pois bem. A medicina foi tirada de suas mãos pelo homem, todas as perseguições contra bruxas foram fundamentadas na vontade do homem de afastar a mulher da medicina e do poder que isso dava. E depois, nos séculos XVIII e XIX, estatutos feitos por homens proibiram terminantemente, sob pena de prisão e multas, o exercício da medicina por mulheres se não tivessem feito certas escolas nas quais, ademais, não eram aceitas. As mulheres se viram relegadas a serem enfermeiras, assistentes, etc. [...] Vê-se, realmente, a vontade de arrancarem a medicina das mulheres. Em outros domínios, acharíamos os mesmos processos. Há essa vontade. Hoje, pode não ser de tomar, mas hoje a vontade é de manter. Há barreiras de toda sorte quando a mulher quer aceder a certas qualificações ou a algum poder.

Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma filósofa existencialista e escritora francesa, que marcou a história do feminismo ocidental. Dona de um espírito livre, audaciosa e revolucionária, é autora da célebre frase “Ninguém nasce mulher: torna-se.” Em seu livro O Segundo Sexo, publicado em 1949, trouxe à baila moralismos e padrões opressores impostos pela sociedade e pela igreja às mulheres, em uma época em que a submissão feminina não ousava ser questionada.

A filósofa francesa elucida um padrão que há muito persiste: o mundo é dos homens; sempre foi dos homens – da costela à divindade – e os homens são cruéis com as mulheres. Seja por medo de perder o monopólio do poder ou para provar sua superioridade, os homens sempre fizeram por onde subjugar a mão de obra feminina. E se ser mulher já é motivo para ser subestimada, a maternidade eleva ainda mais esse descrédito, de modo a marginalizar as mães em um cenário sexista e capitalista.

Depois de mais de 10 anos de empresa, Monique Almeida, de 32 anos, técnica em segurança do trabalho, foi descartada do mercado profissional. O motivo? Ser biologicamente capaz de gerar outra vida, em uma sociedade que subjuga o feminino e tudo que ele representa.

Monique Almeida

Uma pesquisa feita pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), em 2016, aponta que quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade é descartada do mercado de trabalho em até dois anos depois de sua volta — um padrão que pode se estender por até 47 meses após a licença. Em grande parte, as saídas do mercado de trabalho se dão sem justa causa e por iniciativa do empregador. Monique Almeida, mãe de Kaleb, representa esses dados. Ela conta que apesar de estar ciente da fama que a empresa tinha de mandar as mães embora, o descaso com que isso foi feito escancarou ainda mais o desrespeito que as mulheres sofrem em uma sociedade assumidamente machista.

Monique Almeida

Thaiane Dare de 33 anos, publicitária, sempre soube que seria difícil ser notada em um mundo que invisibiliza o feminino.

Thaiane Dare

Naomi Wolf, no livro O Mito da Beleza, cita o economista Marvin Harris, que descreveu as mulheres como mão de obra “dócil e instruída”, logo “candidatas desejáveis aos empregos das áreas de informação e atendimento a clientes, criadas pelas modernas indústrias de serviços”. Nesse cenário, as mulheres ficam sujeitas a uma mínima gama de opções, sempre responsáveis pelo “cuidado” e, geralmente, subjugadas a cargos mais baixos, de menos reconhecimento, menor remuneração e exercendo tarefas de menor complexidade que os homens, pela subestimação de seu potencial.

A filósofa, cientista e escritora pioneira em ficção científica, Margaret Cavendish, que assinava com um pseudônimo masculino para ser publicada, driblando o machismo presente já no século XVII, escreveu à época que as mulheres “trabalham como bestas de carga”. No século XIX, no decorrer do sistema fabril, e partindo da ideia de que as mulheres eram induzidas mais facilmente a suportar os excessos de fadiga físicas, os empregadores as obrigavam a trabalhar mais e a receber menos que os homens. Hoje, mais de duzentos anos depois, a situação não é assim tão diferente.

Apesar da maior qualificação profissional, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) e o IBGE, a diferença salarial entre homens e mulheres chegou a 38% no último trimestre de 2019. Os homens tiveram salário médio de R$6.292 e as mulheres de R$3.876. No segmento de diretores e gerentes de empresas a diferença foi de 29%. Elas ocuparam 40% desses postos, recebendo R$29 a hora trabalhada, enquanto eles ganharam R$40, em média. As mulheres ainda seguem fadadas a trabalhar mais e a ganhar menos.

De acordo com uma matéria de 2019 para a Newsletter “Capitu” do Estadão, a professora da FGV, Carmen Migueles, afirma que as mulheres são maioria da mão-de-obra especializada no Brasil, mas o mercado não consegue utilizar esse potencial porque as empresas focam mais em redução de custo no curto-prazo e se esquivam da licença maternidade. A partir do momento que a mulher tem filhos, mesmo que possua um curriculum brilhante e tenha o potencial para fazer inovações que gerem fortunas, são descartadas pelas empresas.

Mãe é só mais um adjetivo entre tudo que uma mulher pode ser, mas o mercado de trabalho toma-o como fator determinante e limitante do “sexo frágil”, anulando todas as possibilidades do sujeito feminino.

Thaiane Dare

Assim, sem mais nem menos. O patriarcado descarta as mulheres como se fossem objetos que tem vida útil limitada ao período anterior à gestação. Aos olhos da sociedade falocêntrica, o feminino ganha uma conotação negativa e ordinária, culminando numa necessidade de resistência tão ampla, que não se limita somente ao mundo corporativo.

Segundo Silvia Federici, no livro Calibã e a bruxa:

Observando o desenvolvimento capitalista do ponto de vista dos não assalariados – que trabalham nas cozinhas, campos e nas plantações, fora de relações contratuais, cuja exploração foi naturalizada, creditada a uma inferioridade natural –, Calibã e a bruxa desmistifica a natureza democrática da sociedade capitalista e a possibilidade de qualquer troca igualitária dentro do capitalismo. Seu argumento é o de que o compromisso com o barateamento do custo da produção do trabalho, ao longo do desenvolvimento capitalista, exige o uso da máxima violência e da guerra contra as mulheres, que são o sujeito primário dessa produção. [...] A diferença de poder entre mulheres e homens e o ocultamento do trabalho não remunerado das mulheres por trás do disfarce da inferioridade natural permitiram ao capitalismo ampliar imensamente a parte não remunerada do dia de trabalho e usar o salário (masculino) para acumular trabalho feminino. [...] Como vimos, os trabalhadores homens foram frequentemente cúmplices deste processo, tendo em vista que tentaram manter seu poder com relação ao capital por meio da desvalorização e da disciplina das mulheres, das crianças e das populações colonizadas pela classe capitalista.

Assim como em outras áreas, as mulheres e, ainda mais as mães, têm que se provar capazes também na esfera acadêmica, como ilustra a professora e neurocientista gaúcha, Pâmela Billig Mello-Carpes, de 36 anos.

Arquivo pessoal: Pâmela Billing Mello-Carpes


Pâmela Mello-Carpes

Vencedora do prêmio L'Oréal-UNESCO-ABC Para Mulheres na Ciência, em 2017, a hoje doutora em ciências biológicas, enxerga que as dificuldades da ascensão das mulheres, principalmente em âmbito profissional, é uma ideia tão arraigada culturalmente, que não é questionada e muitas vezes não é nem mesmo percebida. Mas, graças aos cada vez mais presentes movimentos feministas na sociedade, é possível que essa opressão velada seja vista com cada vez mais clareza.

Pâmela Mello-Carpes

Segundo a economista Bruna Garcia, que estuda demografia sob perspectiva de gênero, “a sobrecarga de trabalho doméstico aumenta a carga total de trabalho da mulher. Segundo dados da PNAD Contínua (IBGE) de 2018, quando consideramos o trabalho doméstico, as mulheres trabalham em média 21,3 horas por semana em afazeres domésticos e cuidados, enquanto os homens trabalham apenas 10,9 horas semanais. Assim, considerando a carga total de trabalho, temos que as mulheres trabalham 59,2 horas semanais, enquanto os homens trabalham 53,6 horas semanais. Isso acarreta diversos impactos para a mulher, por exemplo, em sua saúde física e mental, ao ter que articular casa e trabalho e ter toda uma ‘logística’ para fazer isso dar certo. Também impacta diretamente nas suas chances de progressão profissional, pois diminui o tempo disponível para aprimorar suas habilidades (como cursos, palestras e workshops) e para fazer networking, que é considerado uma questão importante para subir nas carreiras”.

A maternidade aparece como mais um fator cumulativo na soma de sobrecargas dos afazeres domésticos e profissionais. “O nascimento de um filho traz consigo uma série de novas demandas para o espaço doméstico. Além de aumentar o trabalho já existente, como limpeza da casa, lavagem de roupas e preparo de alimentos, são inseridas nesse contexto as atividades específicas de cuidados dedicados diretamente aos filhos, como auxílio nos cuidados pessoais (dar banho, vestir, alimentar, entre outros), brincar, auxiliar em atividades educacionais, levar à escola, ao médico ou outras atividades, além do próprio monitoramento da criança no domicílio, mesmo que ela esteja dormindo. É importante ressaltar também que essas atividades são muitas vezes realizadas simultaneamente ao trabalho profissional, o que aumenta ainda mais a pressão e o estresse sobre as mulheres”, afirma Garcia.

Contudo, para as mães que consigam manter seus empregos, muitas empresas não cumprem a previsão de pagar auxílio-creche ou de oferecer um espaço físico para que as mães deixem o filho de 0 a 6 meses no horário do expediente, obrigando as mulheres a se virarem sozinhas. Dentro desse panorama de descaso, o empreendedorismo materno nasce como saída ao desemprego, mas operar essa “empresa de uma pessoa só” exige muito esforço e nem sempre tudo são flores. Logo após a demissão, Monique conta que a solução foi investir no e-commerce e virar empresária de si mesma. Ela começou uma lojinha de vendas online via Facebook, Instagram e site.

Monique Almeida

De acordo com dados compilados pela Rede Mulher Empreendedora em 2016, a cada 100 novas empresas criadas no Brasil, 52 são abertas por mulheres. Destas, mais de 50% têm filhos. Segundo a analista do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), Rosiane Moreira, o maior obstáculo enfrentado pelas mães empreendedoras é administrar o tempo. “O desafio é esse: é conseguir conciliar o empreendedorismo em relação à maternidade. Porque, de uma forma geral, o empreendedor vive desafios todos os dias, então é uma questão de ser organizada, de fazer um planejamento, porque isso é muito importante. Nós temos casos de empreendedores que tem empresa há 10, 12 anos e nunca tiraram férias; então é uma preocupação nossa, inclusive, em alertar essas pessoas, principalmente as mães que acabaram de ter filhos”, conta.

As coisas se complicam ainda mais quando o cenário pandêmico causado pelo novo coronavírus se instala e as mulheres, mais uma vez, tem que se desdobrar em mil para dar conta de tudo que lhes é esperado. Não apenas responsáveis pela tripla jornada de trabalho — composta pelo trabalho fora de casa (remunerado) e pelo cuidado com a casa e filhos (ambos não remunerados) — para as mulheres, no atual cenário, ainda há o agravante da necessidade de conciliar o home-office com todas as outras responsabilidades delegadas quase que exclusivamente a elas, acarretando em uma jornada ininterrupta de trabalho. São inúmeras funções diferentes demandadas, mas cada mulher ainda é uma só.

Rosiane Moreira

Por falar em coronavírus, você sabia que no início da pandemia, profissionais do mundo inteiro sequenciaram seu genoma levando em média 15 dias, enquanto no Brasil, no Instituto Adolfo Lutz, logo após o primeiro caso confirmado da doença em fevereiro, sua análise genética foi finalizada em pouco menos de 48h? As responsáveis pelo feito? Duas mulheres: Esther Sabino e Jaqueline de Jesus.

Pâmela Mello-Carpes

Monique Almeida

De acordo com a Constituição Federal, os cuidados e educação das crianças são obrigação, além do Estado, de quem detém o poder familiar que, geralmente, é exercido pelas mulheres. Segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: Mulher e a Cidade” de 2019, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o IBOPE e Inteligência, 36% das mulheres ficam mais com o filho(a) do que a outra pessoa que cuida e 33% das mulheres não dividem esses cuidados com ninguém, somando 69% de mulheres cuidando dos filhos quase ou completamente sozinhas.

Lançar-se no mundo do empreendedorismo materno solitário não é uma tarefa fácil, porque além de um negócio rentável, mulheres e mães desempenham em casa, simultaneamente, um trabalho invisível e não remunerado. A publicitária Thaiane, demitida ainda durante a gravidez, encontrou na vida de freelancer uma alternativa ao desemprego.

Thaiane Dare

Jussara Florêncio, de 37 anos, trabalha como criadora de conteúdo, influencer (Faceboook, Instagram e Twitter) e youtuber, tudo isso enquanto enfrenta a pandemia trabalhando de casa, com seus 3 filhos.

Arquivo pessoal: Jussara Florêncio, na frente das câmeras.

Arquivo pessoal: Jussara Florêncio, por trás do homeoffice.

Jussara Florêncio

Simone de Beauvoir, ainda para o programa Questionnaire, em 1975, trouxe luz para as questões dos empregos precários, do desemprego pós-maternidade e do trabalho doméstico não remunerado, que assolam as mulheres há séculos.

“O conjuntos dos homens ensinou ao conjunto das mulheres a se portar como dependente, passiva, submissa, apagada. É uma condição econômica, mas que advém do fato anterior dos homens terem monopolizado as profissões, principalmente as mais interessantes. No baixo escalão, há trabalhos duros, como o da camponesa, e a camponesa faz tanto quanto o homem. Mas em escalão superior, os homens se esforçaram em persuadir a mulher de que ela não devia se bastar economicamente, que devia apoiar-se no marido e devia se limitar a coisa muito importante para nossa civilização, os afazeres domésticos. Uma das chaves da condição imposta à mulher é esse trabalho que lhe atribuiu, trabalho não assalariado, não pago, que permite a ela ser mais ou menos sustentada no luxo ou na miséria, dependendo do marido, mas no qual não surge um valor agregado.

E se as mulheres fizessem uma revolução nesse plano do do trabalho doméstico, se o recusassem, obrigassem o homem a compartilhá-lo, se esse trabalho não fosse mais clandestino ao qual estão condenadas? Porque passar a vida nesse tipo de trabalho, sem fazer nada produtivo, é realmente uma condenação. Se isso mudasse, toda a sociedade seria revolucionada.”

O que todas essas mulheres têm em comum, além da maternidade, é que elas existem, resistem e seguem ocupando os espaços, desafiando as probabilidades e passando por cima de um sistema que, estatisticamente, como mostram as pesquisas mencionadas anteriormente, não as favorece.